30°Cpostado em 11/01/2012 |
A humanidade como num passe de mágica se tornou devassável. As fofoqueiras que habitaram em tantos e tão distantes lugares hoje são figuras quase bizarras, perderam a razão de ser. O mundo virtual tem os olhos e os ouvidos conectados na rede mundial de computadores, a internet. Todos estamos expostos. Quem não estiver conectado numa dessas redes sociais não é parte integrante desse universo fantástico chamado de humanidade. Diana é economista, trabalha duro como consultora de empresas, era a última pessoa no trabalho e entre os amigos que não havia se familiarizado com as salas de bate-papo, os sites de relacionamentos, o orkut, o twitter e o facebook, as tais redes sociais. As explicações usadas por ela sempre foram taxativas: “não tenho interesse em me relacionar com ninguém virtualmente”. De tanto ser cobrada pelos amigos e pelo chefe imediato, tinha sempre e invariavelmente a mesma resposta, um mantra: “não tenho interesse em me relacionar com ninguém virtualmente”. Resposta pronta para qualquer ocasião e pessoa. E ponto final. Dizia sem alterar a voz. O dia a dia estressante fez com que as férias fossem antecipadas. Promoções de passagens aéreas e facilidades no pagamento, resultado óbvio da estabilização da economia, conduziram a dedicada profissional às praias de Alagoas. Esse destino turístico não foi escolhido aleatoriamente nem foi indicação de agentes de viagens. Em Maceió, reside há muito tempo Ambrósio, o primo com quem Diana, desde a infância, se relaciona. Nunca brigaram, e mesmo vivendo afastados mantêm permanente contato, pois ela é madrinha de um dos seus filhos, Carmela. A oportunidade apareceu, era baixa estação, preços acessíveis das passagens e ainda tinha hospedagem garantida na casa do primo querido. Esse conjunto de fatores foi determinante; restou tão somente arrumar a mala, colocar as roupas de banho e aterrissar em Jatiúca, bairro moderno que dá nome à praia. O metro quadrado mais bonito do litoral alagoano. Todos esses atrativos e mais a companhia querida da família fizeram logo no primeiro dia com que ela esquecesse a pesada agenda de compromissos, o relógio, o celular, instrumento de escravização moderna, e pasmem: o notebook, máquina inseparável. A rotina dura de trabalho foi rapidamente substituída por copos de cervejas e petiscos. Exposição ao sol brilhante, compras rápidas de um novo guarda-roupa de praia. A consultoria de moda-praia foi feita pela “prima”, Ângela. Short colorido, coladinho na pele, camisetas decotadas, adereços para os cabelos foram algumas das compras feitas na primeira noite. Passados alguns dias a conviver com os primos, um mundo novo começou a se descortinar para Diana: a companhia virtual através da internet. As salas de bate-papo. A capacidade de convencimento de Ângela, a mulher do primo, foi inegável. E somado aos argumentos da “prima”, o tempo livre, o lazer. A fala mansa, meiga, mais que isso, a companhia da “prima”, observada sem a pressão ou obrigação de aderir às redes sociais, e o ambiente confortável do escritório do casal foram um grande estímulo. Ângela entrou como de hábito numa sala de bate-papo, mas antes pediu a Diana que presenciasse o contato que ela iniciara. Tudo era estranho e certamente por isso rejeitado, criticado, principalmente para quem tem de aproveitar todos os minutos do escasso tempo de que dispõe para dedicar ao trabalho. Diana nunca se imaginou horas a fio teclando com desconhecidos, um ato que beirava a insanidade − impensável. Mas nada como ficar de frente para o mar azul de Jatiúca e tomar cerveja sem compromissos, descobrir-se sem a obrigatoriedade de horários, escravizada pela agenda infernal. Observar a “prima” teclando na net seria um lazer, apenas. Nada mais que isso. A cabeça de Diana estava na praia, na beleza do mar de Maceió. Ficar boa parte do dia com os pés na areia alva de Jatiúca, copos de cervejas e peixinhos assados eram um sonho que se realizava. Juca é topógrafo, trabalha como autônomo, mas durante o verão desenvolve atividades paralelas: tem uma barraca na praia, onde serve sucos, caipiroscas de vodka com abacaxi, caqui, mangaba, pitanga e outras frutas da época. Mas quem toca o empreendimento é Amarílio, seu funcionário. Juca está permanentemente bronzeado. É desenrolado, bem-falante e tem a fama de ser um discreto conquistador, um pegador de praia. Diana tem ficado de papo com Juca. Os dois andaram tomando banho de mar ao amanhecer sem que houvesse nenhuma combinação; logo às primeiras horas da manhã, entram no mar azul de Jatiúca e mergulham. Têm rolado uns beijos aquáticos. Até parecem dois golfinhos. Os olhares trocados vão criando um clima entre os dois. Acontece que ao tomar caipiroscas, Diana fica desinibida, num clima mais amistoso e fez um convite para saírem à noite. Era a despedida das férias. Surpreendido com o convite, Juca diz que pode ir, mas que não é possível virar a noite, pois acorda cedinho, para montar o negócio à beira-mar. Trato feito. Foram para a noitada. Não jantaram, caminharam pela orla, sentaram numa das barracas com música ao vivo, tomaram cerveja, comeram petiscos, e Diana, desinibida, lhe pediu um beijo. O casal ainda com roupa de praia, ela com biquíni e Juca de bermuda e chinelo de dedo, protagonizaram uma sessão cinematográfica. A noite passou e o casal nem se deu conta. Diana conduziu-o até a areia, onde se amaram e só se deixaram com o dia amanhecendo e o sol brilhando no céu de Jatiúca. A despedida das férias foi tão espetacular que os primos não conseguiram dormir, imaginando que alguma coisa houvesse acontecido de errado. Nada de anormal ocorreu. Para Diana, foi uma das noites mais felizes que passara nos últimos anos. Ao chegar à casa dos primos pediu desculpas por ter “sumido”, e como a bagagem já estava arrumada, teve apenas o tempo necessário para tomar um banho rápido, vestir a calça jeans e uma camisa branca, calçar o tênis e se despedir. Agradeceu a acolhida e seguiu direto para o aeroporto, no carro do novo amor. De volta ao trabalho, refeita do estresse, Diana passou a recorrer à internet, comunicando-se diariamente com o namorado alagoano, pela webcam. Desinibidamente vem realizando strip-tease para o namorado: coloca um fundo musical e tira lentamente as vestes. A timidez foi rapidamente superada, e o casal, mesmo distante, mantém uma desenvoltura como se já se conhecesse há muito tempo. As opiniões sobre as redes sociais não mudaram. Os amigos de trabalho continuam insistindo para que Diana entre numa das redes sociais, pelo menos no facebook. Sem que ninguém saiba, no ambiente privado encontrou novas emoções durante as férias. A rejeição à internet como meio de comunicação pessoal se mantém para o consumo público, tolerando-a apenas como ferramenta de trabalho. Mantém a mesma opinião de antes. Diana é misteriosa quando se trata de navegar na internet. Secretamente, vem se apresentando todas as noites para o namorado alagoano. |
As rodas de samba aconteceram durante vários anos em Jaraguá, bairro boêmio de Maceió. O Buraco da Zefinha, botequim que reunia a fina flor da boemia do bairro e que atraiu uns tantos representantes da classe média, professores universitários, médicos, agrônomos, poetas, filósofos, arquitetos, assistentes sociais, nutricionistas, mas também acorriam para as rodas de sambas, trabalhadores, mecânicos, portuários, catraieiros, estivadores, motoristas e, vez por outra, apareciam umas meninas de profissão duvidosa, que eram aceitas sem nenhuma discriminação.
Para alegria geral eram elas as mais animadas. Tinham o samba no pé e o coração dadivoso, levando muitos dos marmanjos para dançar no apertado salão, entre as mesas.
Duas personalidades se destacavam no botequim: um era o cantor José Paulo, negro, voz grave; os óculos ray ban eram a sua identidade − aquele negrão alto se impunha pela elegância e pelo sorriso largo. O poeta Paulo Renault era o outro. Os dois, cada um a sua maneira, agregavam amigos, bambas para as tardes de sábado no Largo do Mercado de Jaraguá.
Ritinha, médica pediatra, era uma frequentadora assídua das tardes de samba no Buraco da Zefinha. Acostumada ao trabalho intenso no consultório e nos plantões em dois hospitais, de uma coisa ela não abre mão: das rodas de sambas nos dias de sábado. É o momento da sua vida em que ela se permite o prazer, sem que tenha possibilidade alguma de pensar em trabalho.
A profissão é tudo o que tem de mais significativo e importante para Ritinha e para a sua família. Nasceu numa família pobre, proletária; os pais são trabalhadores, a mãe, lavadeira, está aposentada por invalidez; adquiriu uma hérnia de disco que a incapacitou para o trabalho, inclusive o doméstico. O pai, que iniciou a vida como pedreiro, hoje é mestre de obras e anda cada vez mais animado com o boom da construção civil.
A única filha é médica – orgulho para os pais, uma espécie de troféu −, a única de toda a família. Bem-humorada, festeira, dança todos os ritmos, mas é o samba o ritmo de que mais gosta. É portelense como ninguém. Quando vai se aproximando o carnaval, procura aprender o samba-enredo da Portela, escola em que desfila há dez anos.
O seu jeito independente e alegre tem erguido barreiras entre os casais no botequim. As mulheres não costumavam lhe dar conversa, talvez por insegurança, medo, quem sabe, de que em algum momento um dos maridos possa ser fisgado pelos olhares e trejeitos da mulata fatal do Buraco da Zefinha.
Os olhos castanhos da mulata se fixaram num arquiteto-boêmio e poeta bissexto. Passaram muitos finais de semana um jogando com o outro. Houve um ex-militar e escritor que se jogou na direção de Ritinha, mas não logrou êxito. A pediatra fez a sua escolha, atendeu aos batimentos do coração: os olhares correspondidos entre ela e um negrão frequentador assíduo do botequim.
Florisvaldo é um malandro de fala mansa, conhecido na área, com anos de rodagem. Talvez por essas características tenha sido o escolhido pela pediatra, que deixa aos sábados o estetoscópio em casa e sai despojada com um tamborim para tocar na roda de samba. Fulô, como é conhecido por todos, é tido como um cara esperto, “safo”, um cobra-criada na roda da malandragem. Trabalhador, catraieiro, vive desde muito jovem no porto de Maceió. Acostumado às intempéries.
Mas foi pego de surpresa. Primeiro, não imaginou que Ritinha o chamasse para dançar, e muito menos, num segundo momento, lhe dissesse ao ouvido, sussurrando: “Você é meu, gatão. Estou de olho em você faz tempo”.
O samba entrou pela noite, cervejas e cachaças foram tomadas, elevando o grau alcoólico. No final, Ritinha pagou a conta integralmente e o convidou para sair pela noite. Outra surpresa, a terceira em poucas horas: foi levado do botequim para uma noitada a dois num dos motéis da cidade.
De encontro em encontro, os dois passaram a ter uma relação mais séria, mas cada um vivendo em sua casa. A pediatra mora no mais elegante bairro de Maceió, a Ponta Verde, e Florisvaldo de Jesus, numa casa de Cohab, no Jacintinho, bairro popular. O relacionamento impactou a vizinhança; o jeitão desleixado de Fulô logo caiu na boca dos porteiros e de algumas fofoqueiras de plantão do condomínio.
Nada que incomodasse a ilustre moradora. Pagava as suas contas em dia, para ela isso era o que importava. Acontece que o fato de ser bem-humorada e de bem com a vida, falar com todos indistintamente, para Florisvaldo, que não tinha esse tipo de relação com as suas outras namoradas e muito menos com a ex-mulher, passou a incomodar e não demorou a explodir uma tremenda crise de ciúmes.
Depois de cinco meses de namoro, um verão passado juntos, Ritinha, na roda de samba, fala para os amigos que vai novamente desfilar na sua escola do coração: a Portela. A partir desse momento o caldo foi entornando: olhares de desaprovação e cenas explícitas de ciúme se tornaram públicas.
Desavisado, Mário, amigo e ex-namorado, havia chegado de uma viagem; não sabia do namoro e não havia percebido o clima de ciúme explícito. Chamou-a para dançar, e o pedido foi prontamente aceito. Os dois foram acintosamente observados pelo namorado.
A cena foi vista, de longe, pelas despeitadas mulheres que acompanham os maridos, marcando-os severamente. Os comentários rapidamente foram feitos de mesa em mesa. A altivez da pediatra não permitia passar recibo; dura, enquadrou o namorado ciumento. E disse-lhe em voz alta que iria ao Rio de Janeiro, como já havia ido nos últimos nove anos. Fez questão de apresentar ao amigo o namorado e ressaltar a sua atitude infantil.
O carnaval estava próximo. As passagens estavam reservadas, inclusive a de Florisvado de Jesus, que nem sabia que seria presenteado. Era a surpresa que a amada iria lhe fazer.
A proximidade do carnaval foi aumentando o ciúme, e o clima piorou. Ritinha decidiu acabar com as cenas. Chamou-o para uma conversa e lhe disse que o amava, mas que era uma pessoa independente e que pagava um alto preço por ser assim. E não seria ele quem iria quebrar um compromisso com a sua escola e estragar o prazer em desfilar no carnaval carioca.
A reunião colocou um ponto final no namoro. As lágrimas correram dos olhos do casal. Mesmo diante de tanto choro, Ritinha foi desfilar. Antes, passou na sua cabeleira, se depilou, cortou os cabelos, fez massagens. Um pouco antes de viajar, passou na casa dos pais para se despedir e deixou dinheiro para eventualidades. Procurou ocupar o tempo, mas o seu negrão não lhe saía do pensamento. O avião voando a doze mil pés de altitude, e Ritinha chorando baixinho, quase soluçando, com lágrimas rolando pelo rosto, manchando a maquiagem, toma uma atitude. Batuca na mesinha e cantarola baixinho um samba preferido: “Vem, meu novo amor/Vou deixar a casa aberta/ Já escuto os teus passos/Procurando o meu abrigo”.
Amizades se fazem durante a infância e juventude. Pode parecer uma frase de efeito, mas não é, pelo menos eu penso assim. Durante a vida, longa ou breve, cada um de nós evidentemente que pode conquistar amizades, no trabalho, na vida militar – para os que foram ou são militares −, etc. É possível ficarmos muitos anos sem que encontremos um amigo sequer da juventude, quando vivíamos intensamente as farras, brincadeiras, viagens, peladas. E quando acontece o reencontro é como se retornássemos àqueles anos de convivência diária.
A vida nos obriga a tomarmos caminhos diferentes, e perdemos os laços que eram tão próximos, íntimos, até. Não temos notícias um do outro. O reencontro é algo renovador, restaurador. As lembranças dos anos em que fui estudante – nas três fases: primário, secundário e universitário – são recorrentes. Muitas vezes uma palavra nos transporta para um tempo que achávamos adormecido em nossas memórias.
Os quatro anos vividos como estudante no Colégio Marista de Maceió deixaram marcas em minha vida. Jamais os esquecerei por completo, a não ser que o Alzheimer, esse maldito alemão, se apodere de mim. Mas como o meu santo é forte, dou-lhe um pontapé no saco e ele sai rápido de perto. Vai baixar em outra freguesia.
Nunca participei de eventos nostálgicos, não sou dado a esse tipo de convivência. Mas como continuo morando em Maceió, e morar em cidade pequena significa, entre outras coisas, encontrar com pessoas conhecidas, vez por outra me encontro com o Waldson Peixoto, amigo desse tempo. Em geral, na sorveteria Bali. E ele sempre com a ideia de reunir a turma, pois anos se passaram sem que nos encontrássemos com frequência.
A minha resposta foi sempre afirmativa, mas intimamente não me via presente nesse tipo de ação. Até que o mundo virtual do Facebook me aproximou de inúmeros amigos de quem não ouvia falar e de alguns de quem não me lembrava. A minha memória nunca foi boa o suficiente para memorizar nomes de pessoas, e quando se trata de quantidade. então me sinto órfão. Recorro à malandragem, do tipo: “e aí, tudo bem, meu irmão”. Ou à mais usual: “Ah, quanto tempo não nos vemos, vamos marcar um encontro”. E não passava disso.
Agora me vejo completamente comprometido com um ambiente que já não é mais virtual, mas real. O primeiro encontro, que denominamos de preparatório do Encontrão, foi uma maravilha de rememoração de acontecimentos. Creio, até, que foi um estagio de regressão, não digo ao útero, mas à infância e à adolescência, já tão distantes. Afinal, somos mulheres e homens, alguns avôs, outras avós, uns casados, outros descasados, outros casados por mais de uma vez, mas todos ávidos por lembranças de fatos comuns às nossas vidas de adolescentes.
No dia do encontro preparatório, Alagoas ficou submersa; mesmo assim um grupo de cerca de 20 pessoas saiu, cada um em seu bote, e foi ao Divina Gula, beber e comer e jogar conversa fora.
O incrível de tudo isso, pouco ou quase nada tratamos de nossas vidas pessoais ou profissionais na atualidade. Quanto a essa fase, sinto não ter criado nenhum tipo de curiosidade ou mesmo de interesse. Queríamos era reviver um tempo a que jamais voltaremos, a não ser quando o rememoramos, e nada mais.
A página criada no Facebook, Alunos do Marista 1979, tem sido alimentada com avidez, e para minha surpresa, muitos comentários sugerindo como devemos realizar o Encontrão. Preciso ressaltar o papel de duas figuras que no meu entendimento têm sido fundamentais para agregar os amigos: o Waldson Peixoto e a Thereza Vieira.
Há também os que mantêm acesa a chama: é o caso do Omar Coelho, do Plínio Goes, da Tereza Holanda, da Aline Marta, do Sérgio Costa, do Alberto Jorge, do Sérgio Quintela, do Aderson Mendonça e do Elton Rocha, entre outros.
Enquanto não chega o dia do Encontrão, continuaremos a brincar como se fossemos adolescentes, através do Facebook, prosseguindo na busca dos amigos que ainda não foram contatados.
José Paulo da Silva Ferreira, poeta, ex-funcionário público, nasceu em Pão de Açúcar (AL), no dia 29 de junho de 1962, filho de Otacílio Ferreira e Ubaldina Bezerra da Silva. Estudou sempre em escolas públicas em sua cidade natal e foi lá que iniciou as suas atividades como poeta e publicista, escrevendo poemas e também contribuindo na imprensa sindical com textos políticos, sendo o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Pão de Açúcar o seu bunker.
Como já havia um desejo, mais que um desejo, um trabalho de divulgação poética e político na cidade, principalmente entre os estudantes secundaristas, logo esse contato se materializou por intermédio dos estudantes de Pão de Açúcar que já moravam em Maceió e tinham participação no movimento estudantil. Não demorou muito tempo para que viesse morar em Maceió, numa das tantas residências alugadas por estudantes de Pão de Açúcar.
Descortina-se um novo horizonte na vida do poeta. Participa ativamente do movimento estudantil. Novos contatos são feitos, quando então passa a escrever em jornais de estudantes, tanto secundaristas como universitários, e se transforma num colaborador permanente dessas publicações alternativas.
O movimento estudantil cresce e assume papel cada vez de maior destaque, gerando um ambiente cultural novo para a Maceió da década de 1980 e para Alagoas.
O trabalho intelectual, antes publicado em mimeógrafo, toma um novo rumo, passa a ser editado em off set, uma nova tecnologia. Agora, já não são mais os livros artesanais, mas publicações modernas e em série.
A vida de estudante ficou para trás. Uma nova perspectiva é traçada. Era chegada a vez da poesia em sua plenitude: saraus em bares, encontros estudantis, participação em festivais de música. Em decorrência do seu engajamento é convidado para o seu primeiro trabalho formal, como servidor público, na Fundação Teatro Deodoro (Funted).
As enormes tarefas que se apresentam, como reorganizar e repensar uma instituição quase centenária como o Teatro Deodoro, foram um dos desafios naquele momento da vida cultural alagoana, mas não era evidentemente um trabalho individual em que um jovem poeta e outros tantos artistas e profissionais das artes cênicas se apresentaram como gestores públicos da área cultural, nem o momento concebia o mundo a partir da ótica de militante político, pois mantinha então vínculos com o Partido Comunista do Brasil (PC do B).
O jornal Boca de Estudante, órgão oficial do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), certamente foi o jornal que mais publicou poemas de Zé Paulo (como ficou conhecido e como assinava, também), mas foi na antologia Oficina de Poesia Opus-5, editada pelo DCE−UFAL, em 1986, que se revelou com maior destaque, ao lado de vários outros poetas, todos envolvidos com o movimento de renovação cultural em Alagoas e que tinham − pelo menos naquele momento histórico, a década de 1980 − o movimento estudantil como propulsor de ações artístico-culturais diferenciadas, recebendo influências do PC do B.
O Oficina de Poesia Opus-5 conta com poemas e textos de Cláudio Manoel, Deyves, Edvaldo Damião, Jorge Barbosa, José Duarte, Zé Paulo e Sidney Wanderley, numa edição com 76 páginas, pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal).
Os seus poemas vão sendo publicados sempre em antologias ou ainda nos jornais do DCE e dos Centros Acadêmicos. Em 1987, a Secretaria de Cultura de Alagoas, pela sua editora, a Ediculte, lança a Coletânea Caeté do Poema Alagoano, com a colaboração de 43 poetas, entre eles, Zé Paulo.
A Fundação Cultural Cidade de Maceió (FCCM) seleciona centenas de poemas de dezenas de poetas alagoanos ou que em Alagoas vivem, e publica a Antologia dos Poetas Alagoanos. Mais uma vez poemas da autoria de Zé Paulo são publicados. Mas um fato persiste: o poeta não tem um livro autoral que reúna os seus poemas. Permanece em movimento pela cidade de Maceió, recitando nos bares, nos logradouros públicos, nos salões, nas manifestações estudantis e políticas.
O poeta, certo dia, encontra uma musa e se muda de mala e bagagem, em 1988, para Curitiba (PR), onde permanece até 1991. Continua publicando os seus trabalhos em obras coletivas; uma dessas foi o programa da coreografia Brasil, um país de cores, do Ballet Morozowicz. Expõe ainda no Sesc e no espaço Cultural da Caixa Econômica Federal (CEF), tendo participação ativa na Feira do Poeta.
Hoje o poeta José Paulo vive em Pão de Açúcar, à beira do rio São Francisco, olhando todos os dias o curso do rio, conversando com a sua gente, sertaneja como ele, fonte de sua inspiração e razão da sua existência.
Elinaldo Soares Barros [1947], crítico de cinema, cinéfilo, jornalista e professor de educação artística, nasceu em Maceió, dois dias antes do natal de 1947, no dia 23 de dezembro, filho do casal José Soares Filho e Elita Soares Barros. Estudou no Colégio Estadual e na Universidade Federal de Alagoas, onde iniciou as suas atividades político-culturais, sendo eleito segundo secretário do Centro Acadêmico do Instituto de Letras e Artes (ILA), na gestão de Élcio Verçosa, no biênio 1968/69.
Licenciado em Letras pela Ufal em 1970, trabalhou como professor do Colégio Guido de Fontgalland e a partir de 1974 no Curso de Educação Artística do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac).
A segunda metade da década de 1960 foi o período em que a ditadura militar recrudesceu e a censura às manifestações artísticas e políticas atingiu o seu ápice. Nesse momento difícil, um grupo de jovens cinéfilos organiza o Cinema de Artes em Maceió, tendo à frente Radjalma Cavalcanti, Gildo Marçal Brandão e Imanoel Caldas.
Todos esses jovens tinham em comum o gosto pelo cinema e pelas artes, alguns também pela política. Nem todos eram vinculados à política, mas ao movimento estudantil e suas vertentes.
Elinaldo, estudante de Letras e já cinéfilo, frequentava desde a infância os cinema de bairro, que existiam naquela época: o cine Lux, na Ponta Grossa, o Ideal, na Levada, e o Royal, no centro. Integrou essa turma de difusores da sétima arte em Maceió.
O jornalismo na década de 1960 em Alagoas ainda tinha um aspecto romântico e boêmio. Nem todas as seções do jornal eram profissionalizadas; o caderno de cultura era uma dessas áreas do jornalismo que necessitavam de colaboradores, e foi a partir da critica de cinema e até mesmo das crônicas esportivas que intelectuais e jovens universitários passaram a colaborar mais assiduamente.
Os primeiros trabalhos publicados de sua autoria foram crônicas esportivas no Diário de Alagoas. Com o fim desse jornal, passou a escrever criticas de cinema no Jornal de Alagoas, que na naquela época era o mais antigo jornal do Estado, órgão de comunicação impressa onde mais publicou, inclusive assinando uma coluna chamada “Cinema”.
Colaborou ainda em outros jornais diários e semanais como: Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, O Jornal e O Diário. Escreveu em 1985, para o jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Voz da Unidade, o artigo “Uma Visão Histórica do Cinema de Alagoas”. Ainda escreveu nos jornais e revistas que foram surgindo e logo em seguida despareciam, em alguns casos sendo obrigados a fechar por força da pressão econômica. Foi o caso da revista Última Palavra. Versátil, também colaborou com o jornal semanal da arquidiocese de Maceió, O Semeador.
A longeva atividade de critico de cinema, toda ela exercida como colaborador nos jornais e nas televisões de Alagoas, o coloca na condição do mais influente intelectual nessa área. Formou várias gerações de professores, jornalistas e de espectadores.
Foi comentarista de cinema na Tv Gazeta, afiliada da Rede Globo. Atualmente é comentarista da Tv Pajuçara, afiliada da Rede Record em Alagoas. Em companhia do médico e acadêmico Ismar Gatto e de Maria Flora de Melo Soares, sua esposa, produziu um programa que marcou época no rádio alagoano: “Difusão Cultural”, veiculado pela Radio Educativa FM.
Na década de 1970 o Diretório Central dos Estudantes da Ufal organizou alguns Festivais Estudantis de Música Popular. Imediatamente foi convocado pelas lideranças estudantis para colaborar.
Na condição de funcionário da Secretaria de Cultura participou da organização de outros eventos importantes, como o Festival de Fotografia, o Salão de Humor, o Festival de Verão de Marechal Deodoro e vários Seminários de Literatura. Ainda foi diretor, por dois anos, do Museu da Imagem e do Som (Misa).
O maior e mais significativo momento do cinema alagoano ocorreu entre 1975 e 1982, período em que foi criado o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo (AL), um evento de excepcional importância para os cineastas locais e também para a produção nacional, com sede na cidade barroca ribeirinha de Alagoas. Os festivais atraíram público, cineastas e produtores de várias partes do país e passou a ser uma das referências do cinema nacional. Em todos os festivais de cinema trabalhou na organização, pois na época era funcionário do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas.
É critico de cinema em Alagoas desde 1969. São 42 anos de atividades ininterruptas. Em 2010, foi relançado em segunda edição o livro Panorama do Cinema Alagoano, sob o patrocínio do Cesmac.
Obras de Elinaldo Barros: Panorama do Cinema Alagoano, apresentação de Jorge Barbosa, capa e montagem fotográfica de Esdras Gomes, Maceió, DAC/Senec/Sergasa, 1983; Cine Lux: Recordações de um Cinema de Bairro, Maceió, Edicult/Secult, 1987 (prêmio da AAL em 1988); Rogato: a Aventura do Sonho das Imagens em Alagoas, com uma Apresentação Quase Desnecessária, de José Maria Tenório Rocha, Maceió, Secult [1994]; O Povo Diante das Lentes, in Arte Popular de Alagoas, de Tânia Pedrosa, p. 105.

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